

Ilhabela é um ligar lindo, de terras pomposas
e de frutos graúdos.
Voltei de lá vermelha e inchada,
infinitamente picada por seus borrachudos.
Eu continuo lembrando do seu nome quase todos os dias. Principalmnte quando me sento no banco do ônibus e olho pela janela; naquela época tudo oque via eu queria contar pra você. Hoje eu não quero contar mais pra ninguém, porque não há alguém que eu quero que ouça simplesmente. Só você servia, só você receberia as minhas palavras da maneira que eu sempre sonhei que elas fossem recebidas, e faria o comentário da maneira exata que eu gostaria de ouvir. Naquela época eu trabalhava numa obra em que pintávamos com tinta a óleo. Me vejo perfeitamente, diluindo a tinta com o líquido de terebentina, óleo de linhaça e secante. Hoje quando trabalho com óleo, eu fico trisite. Porque eu me lembro lembrando de você.
Tínhamos muito oque falar sobre Milan Kundera, Chico Buarque e o caos do universo. Um dia, em horário de almoço, me debruçei sobre o umbral da varanda do prédio, estava no quinto andar. Ouvia as palavras de Kundera a respeito da vertigem, e senti vontade de pular. Mas logo me lembrei de você novamente, e de que precisava lhe contar essa experiência, essa vontade, todo aquele instante. Sentava-me numa tábua de madeira de obra, e tentava imaginar a solidão, e me perguntava oque você pensava sobre isso, ou aquilo. Eu não sou uma filósofa, estou muito longe disso. Meus questionamentos não eram – talvez estejam se tornando – verdadeiros. Eu nem mesmo pensava; apenas tranformava tudo num teatro aparentemente poético, fingia estar pensando e chegava até a alguma conclusão, mas era só para que no fim do dia, ao encontrar seu nome na lista de pessoas on-line no meu msn, eu pudesse lhe dizer algo diferente; transformar a nossa conversa em algo completamente estranho de tudo oque já havia acontecido na minha vida e principalmente na sua. E eu consegui, ao menos de minha parte.
Estou escrevendo para um plano que não deu certo. Não um plano, usei mal a palavra, plano parece algo milimetricamente calculado, formulado, com o uso tão somente da razão. Quis dizer que escrevo para um sonho. Um sonho: vem antes do plano. O sonho é pura sensibilidade, algo completamente inconsciente. A razão não tem muito espaço na cabeça de um sonhador. Um sonhador se move no ritmo do coração. Um sonhador não vive. Ele sonha. E oque foram todas aquelas linhas, aquelas milhares de linhas escritas durante aqueles poucos meses que me pareciam anos, senão pura pulsação cardíaca, como aquelas linhas que sobem e descem no visor de um cardiograma, numa sala gelada de hospital?

"Homem nenhum colocaria uma palavra no papel se tivesse coragem de viver aquilo em que acredita."
Henry Miller.