quarta-feira, 31 de março de 2010

Ilhabela 27 de março







Ilhabela é um ligar lindo, de terras pomposas
e de frutos graúdos.
Voltei de lá vermelha e inchada,
infinitamente picada por seus borrachudos.

sexta-feira, 19 de março de 2010

sobre alguns incovenientes do ponto de ônibus

Me irrita quando passam vários ônibus com o mesmo destino repetidas vezes, um após o outro.
Outra coisa que me irrita amargamente neste universo do ponto de ônibus, é quando estou sentada no banco e alguém se encosta ao meu lado, em pé, fazendo com que seja impossível a visualização da rua e aumentando, assim, em 10 vezes, a possibilidade de meu ônibus chegar sem que eu o veja (e sem que eu possa dar-lhe sinal), fazendo com que ele passe direto.
Tem mais uma coisa que me irrita: quando estou sentada no banco do ponto e derrepente pára um ônibus em frente ao ponto, cheio de gente dentro, que em sua grande maioria, estão olhando para a rua, no caso, pra o ponto de ônibus. Ou seja, essas pessoas acabam por fixar seus olhos em nós, nós que estamos parados, sentados a espera de uma condução. Estamos numa situação frágil, pois ainda não conseguimos subir no ônibus, ao contrário destas pessoas, que já estão lá há algum tempo. Pessoas que estão sentadas, paradas, sendo transportadas sem nenhum esforço e ainda têm a janela de tela para entreter-lhes, e estas pessoas ficam nos fitando, ficam olhando, analisando, pensando sobre nós, que estamos no ponto esperando o ônibus, nós que não sabemos onde enfiar nossas caras.

sábado, 2 de janeiro de 2010

Mais uma estória de trem



A viagem ia bem e eu já havia dormido as primeiras duas horas. Assim que acordei, fui andando até o vagão do restaurante onde pedi ao garçon um hamburguer com bacon e uma cerveja, brahma. Ele me disse que não vendiam cerveja e então eu pensei e resolvi querer um suco de acerola. Natural. Só havia suco de garrafa e então eu disse ok.
As poltronas do restaurante eram verdes de um acolchoado mais confortável que as outras. Era muito melhor ficar ali, com as janelas livres e com ar condicionado. Só tinha eu e quatro freiras à minha frente no vagão.
O trem estava deixando Retiro Saudoso e havia o Rio Piranheiras que estava ali na janela desde o início da viagem. Estava azul até, e cheio. A luz de fim de tarde batia nas montanhas e as deixavam bonitas, mais verdes e o céu estava limpo de nuvens.
As freiras eram senhoras mas havia uma novinha de seus 20 anos de idade, era uma índia apagada por roupas cinzas de castidade. Conversavam contidas rindo só com um traço discreto na boca. A índia era a que menos achava graça mas era também a única que tinha graça.
Me empenhei em flertá-la. Ela na sua ingenuidade falsa não me olhava nunca mas já havia notado minha insistência de velho galanteador. Não acreditava de forma alguma em sua pureza e meu palpite era que até o fim de meu suco de acerola, ela ainda levantaria a saia até os joelhos, discretamente só pra eu ver e depois me daria o sinal para nos encontrarmos no banheiro. Meu sonho de muleque.

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

vovô virou criança


Meu avô brinca de adivinha comigo.
- Florinha, Florinha qual é a energia que move o mundo? É o amor. A maior força do universo.
Ele responde antes de mim, pra que eu não tenha tempo de errar.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Amor de trem e estrada


Era uma vez um trem muito, mas muito devagar. Ele era devagar porque era um trem triste. Mas um dia, ele ficou apaixonado. O Trem ficou apaixonado por uma estrada de asfalto.
O Trem fazia o seu melhor, mas a Estrada nunca lhe dava um olhar de volta. Mas esse Trem era especial e tinha certeza de que nunca desistiria de sua paixão. 
O Trem não sabia se aumentava  velocidade por conta de sua alegria ou se andava mais devagar para ficar mais tempo junto de sua amada, pois não sabia que tamanho ela tinha. Só que os trilhos eram ingratos com o Trem, pois eles chegavam perto da Estrada e depois se afastavam de novo, deixando o jovem apaixonado distante de sua amada.
Uma vez ele se distanciou muito da Estrada e, numa atitude desesperada, o Trem convenceu o maquinista para que ele fosse puxar a alavanca dos trilhos para mudar a direção deles, e estar mais proximo da sua Estrada de asfalto. Enquanto o maquinista ia até a alavanca bem lá na frente, o Trem esperou, esperou...




Enquanto ele esperava, um homem usando um chapéu de palha sem sapatos nos pés, passou andando ao lado do Trem. O homem parou e olhou profundo para o Trem, e lhe disse:
- Estou à pé. Posso ir com você?
O Trem respondeu:
-Pra mim, tanto faz. A única coisa que me importa é a paixão que sinto por certa dama Estrada.
Por ironia do destino, o homem conhecia a melhor amiga da Estrada: a Moto que andava solteira. O Homem era apaixonado pela Moto...
-Mas, disse o homem, eu sou como o vento, eu venho e vou quando sinto vontade e não posso me amarrar à uma responsabilidade por causa de uma paixão. Eu te desejo sorte, espero que a Estrada de asfalto te ame também! Mas você vai precisar de minha ajuda.
Então o Trem lhe abriu sua porta e o homem pulou para dentro. E o Trem pegou impulso trilhando agora o novo caminho. E então seus olhos brilhavam e seu coração batia mais forte, movido pela esperança de encontrar seu verdadeiro amor... a Estrada de asfalto.


O problema é que a Estrada era uma puta, recebia milhões de carros e caminhões diariamente, sem parar. Era esse seu destino de estrada; ela não poderia nunca ser do Trem e o Trem não poderia nunca ser dela. Mas o Trem era inocente e não havia atinado para isso.
Ainda iludido e ainda mais próximo da Estrada, o Trem tentou falar com ela, só que aí viu um caminhão novinho, com mais de 5 toneladas passando por cima de sua amada a 130 quilômetros por hora...

 
O Trem sentiu-se mal por isso. Ele disse:
- A Estrada de asfalto nunca irá me amar, existem tantos outros meios de transporte tão bonitos. Ela já deve estar apaixonada.
 O homem de chapéu de palha deu um sorriso de sábio e disse:
- Meu querido amigo, você precisa descobrir o caminho do coração dela! Ela ainda não ouviu sua música. Cante algo e ela se apaixonará por você!!
Então o Trem apitou tão alto quanto pôde:
- PIIIIIIIIIIIIUUUUIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
E pela primeira vez, a Estrada de asfalto se tocou da presença do Trem...e se emocionou com seu canto e quis também amá-lo. Ela teve nojo da sua vida promíscua de estrada diante da pureza daquele amor. Os carros barulhentos começaram a irritá-la e então houve um grande acidente de carro e todos os veículos foram batendo um no outro, até a Estrada ficar em silêncio. Aí então eles se olharam e o Trem parou e eles se amaram com o olhar. Aí ele entendeu que ela o amava também. Surgiu nela um sentimento diferente e ela lembrou que era de família tradicional mineira; aquela vida não era dela, as BRs que a cortavam que a fizeram assim. 
A Estrada nunca mais quis receber nenhum carro e de meio de transporte, só queria o Trem, que estava sempre ao seu lado. E então os dois passaram a vida viajando de leste para oeste ouvindo Jonny Cash.


Texto escrito por Flora Ramos, Savana Vagueiro e Syã Fonseca. 
Aos Farrapos editora.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Um discurso grandes coisa


O murmurinho das coisas era incessante. As coisas falavam alto, depois diminuiam o tom, e as coisas se mexiam sem parar pra lá  pra cá e afinal, coisa nenhuma fazia sentido ali.
As coisas derrepente calaram-se, deixando algumas coisas pendentes em suas conversas. Coisa nenhuma se ouvia agora, pois havia chegado a Coisa, a chefe das coisas, a Coisa Mor, a Coisa Mãe.

- Minhas coisas!! As coisas estão ficando complicadas pro lado de vocês. Qualquer coisa que coisarem ou pensarem, eu estarei de olho, à espreita. E uma coisa é certa: serei firme em minhas decisões. Eu sou a Grande Coisa que ordena tudo isso daqui e mando em todas as coisas. Coisinhas, é oque são. Estão irremediavelmente abaixo de mim, e estão proibidos de fazerem qualquer coisa sem a minha permissão!! Ora, podia ouvir o barulho que aqui faziam antes de minha chegada. Vocês não diziam coisa com coisa!  Não há coisa alguma na cabeça de vocês! Às vezes sinto uma coisa, um desânimo. Ou melhor, a palavra seria decepção. Vocês me decepcionam com todas essas coisas que fazem, coisando sem eira nem beira! Coisando distraídamente, tolamente. Coisando sem ouvir minhas instruções. As coisas que eu digo não podem ser ignoradas! Ora, que coisa! Por fim, há mais uma coisa que vocês precisam saber: as coisas nunca serão fáceis pra vocês, coisinhas. Acostumem-se com isso. 

domingo, 13 de dezembro de 2009

me convide para ir ao cinema numa tarde de sábado

Quando me ligou, estava sentada numa mesa na praça de alimentação, comendo uma esfiha e bebendo suco de goiaba no canudinho.
- Eu tô aqui em frente ao cinema, cadê você?
- Eu tô em frente ao Mac Donald's. Tô comendo alguma coisa. 
 Olhei na direção do cinema e lá estava ele, com o celular no ouvido, dando voltas em torno de si, de certo à minha procura. Acompanhei com o olhar.
- Ah, eu vou ficar aqui então, te esperando. Eu já comprei os ingressos. - mentira. estava me procurando, com planos cafonas de me surpreender chegando por trás, dando-me um abraço e um beijo na bochecha.
- Tá, eu já acabo aqui. beijo.
Ele continuou à minha procura. Veio se aproximando, virando sempre a cabeça para todas as direções, exceto para onde eu estava. Saquei os fones de ouvido, Leonard Cohen cantava Suzanne. Coloquei os óculos. Ele usava uma bermuda escura de tecido pesado, tênis allstar preto de couro e uma blusa irritantemente listrada. Minha esfiha acabou, e eu fiquei no suquinho de goiaba. Porque ele penteava o cabelo? Ficaria mais interessante se deixasse que criassem cachos, e que eles caíssem pela testa. Ao invéis daquela coisa forjadamente lisa. Ombros caídos. Mãos mortas, sem autonomia, balançando inertes. Senso de observação ruim, chegara a 5 passos de mim sem me ver. Me olhou, mas não me viu. Cego. Afobado, me procurava mas não era capaz de me achar ali, sentada, parada, olhando pra ele. Fez uma cara de estranhamento, de certo achou que eu já tivesse me levantado, à procura dele. Desistiu, voltou em direção ao cinema. Sumiu na multidão insosa dos frequantadores do Shopping Bourbon.
Desliguei o celular, joguei o copo plástico no lixo e fui pra casa, as pernas movidas pelo cinismo e descaso de moça que não tem aquele que ama.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Gol

Eu chutei o cesto de lixo de banheiro. O peso do meu pé era de todo o ódio que se tem guardado num banco de ódios comprimidos esperando para serem sacados. Saquei meu pé, chutei o cesto de lixo cheio. Lixo de banheiro. Cheiro de merda de menstruação papel com meleca cabelos e gordura. Chutei o lixo contra a porta do corredor, BOOM. Eu chutei o lixo porque seria uma grande injustiça, a maior que eu poderia cometer: sujar o chão e a porta de merda. Eu tô vendo agora papéis higiênicos espalhados pelo chão de madeira, alguns são empurrados pelo vento. Na porta, maçarocas de fios de cabelo. É injusto ou não? Vou ter que limpar o que sobrou de bosta da bunda de todas elas, e da minha.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

O erro.

Os copos de vinho tinto barato já haviam sido bebidos com as conchas de mar que os temperavam. A conversa embriagada e os segredos universais, já haviam sido ditos. As mãos ansiosas e os lábios perversos e as línguas com fome. Minha boca amanheceu salgada, limpei os grãos de areia do meu vestido. Contei as conchas e guardei. E aí então eu quis te conhecer de novo.

segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Planos

Falarei dos cafès de Paris e do cheiro de Nice entre um gole de champagne e outro. Usarei vestidos de algodão finos, cheiro de um bon crème de bain, bordados à mão, barras de cetim, lenços de seda, estamparia africana. Contarei segredos em meu perfil do FaceBook. Meus amigos me chamarão para beber cerveja alemã. Meus amores serão vários, durarão alguns meses e serão de fato.  Se ficar triste, farei uma viajem para uma ilha no Pacífico, e saltarei na água de uma pedra, nua.

sábado, 28 de novembro de 2009

Dia barato

Que domingo de sábado, quem é que sabe de mim? Levanto achando que deveria continuar sonhando, morrendo na cama. Não consegui ficar, havia silêncio demais pelos corredores, na sala, cozinha. Dei bom-dia pra máquina cinza que já estava ali cínica, já sabia o meu dia, ela sabe que eu não me aguento, eu levanto e aperto o botão e sento com ela no chão, em cima da cama, na mesa, em pé. Apartamento vazio de gente e cheio de coisas. Meu computador me dá conversas e preguiça, já é noite e cada papel jogado no chão continua ali. Canto de Oxum baixinho e eu posso sentir a sala se enchendo de entidades, minha cadeira vibra. E o interfone toca. O sanduíche chegou, eu pedi porque o gás já havia acabado.

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

útero

 Ela me agradece quando eu ligo e depois diz que me ama. Fica parecendo que ela pede para que eu a ame também. Só porque eu nunca falo. 
 Mas eu penso nos ovos cozidos com gema mole, nas saias longas e floridas; lembro do piso de madeira que fazia barulho quando agente andava, da parede de pedra na rua 7.  Quero dizer, que penso nas noites em que ela ia no meu quarto e montava o cortinado, eu deitada já na cama, a ajudava e depois pedia uma música. Não me lembro quais músicas cantava. Mas eu lembro o som e lembro que dormia antes que acabasse. Olha que eu penso tanto nos banhos na praia da baleia, o vento forte à tarde, caminhadas até Santa Cruz beirando a estrada. Aquele lugar tinha cheiro de felicidade que eu sinto só agora. Me lembro até do barco em Búzios, quando apredia a andar, o Syã ainda não; ficava no colo de papai. Todos nós vivíamos nús e comíamos peixe assado no jantar - foi oque ela me contou. Desde essa época eu sei do corpo dela, eu penso muito nas mãos, unhas curtas, os pés longos e frios. Tirando os pés e mãos, nossos corpos são tão parecidos. E estão ficando ainda mais, hoje eu achei algumas varizes perto do joelho, à noite eu ligo pra dizer isso à ela. Mentira. Eu nunca ligo pra contar nada disso. Eu ligo pra saber da Tunísia, do Atlântico, da Bahia, do Recife. Pra saber da sua Voz e da sua Saudade. Só porque eu nunca falo, ela não sabe que eu penso tanto nela que as vezes é como se eu tivesse pensando em mim.

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Joana e Maria no ponto final

As duas juntas esperavam o ônibus aparentemente esperavam iguais o ônibus no ponto. Maria agaixada no chão sentada sobre seus pés, pronta para botar um ovo. Joana agaixada, também levantava e dava voltas (não era impaciência era só alegria). Maria agaixada, agaixada ficou até a chegada do ônibus. Joana namorada fingia impaciência. Mentia, dizia da espera por maldade ou por folga - o ônibus pra ela não era nada. Maria, que mais agaixada não podia ficar, quiz o chão mole pra descer com ele, sumir assim. Sentia-se chão também. Queria o ônibus pra chegar em casa logo e tomar banho na ducha de água forte. Ao lado de Joana, o corpo pesava e ficava mais sujo - havia caído em desuso. Joana apaixonada feria Maria (só maria) com o olhar leve, o corpo limpo a cada toque de boca era mais santo. Não esperava o ônibus, ponto. Não queria banho nenhum, nunca mais. Queria ter o corpo pra sempre com o cheiro do dia.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Promiscuidade

No vagão sujo do trem, uma mulher quis me vender uma barra de chocolate. Chegou com várias barras iguais dentro de uma sacola branca e amassada. Ela não perguntou, jogou uma barra no meu colo e fez isso com todos que estavam sentados também - voltaria depois para pegar o dinheiro. O chocolate tinha embalagem desbotada - e um nome desconhecido, pouco apetitoso. Seria arriscado, mas levei minha mão ao bolso e peguei as últimas moedas. Esqueci deste chocolate, só pensei nos chocolates como eram os que eu já sabia. Entreguei à mulher as moedas do bolso e abri a embalagem. A aparência era ruim, de chocolate com cacau de menos. Tinha mais as coisas que não são de chocolate. Ai, como era ruim o gosto daquilo que a mulher havia me vendido como sendo chocolate. Coitada de mim, fiquei com a lembrança na boca até encontrar água para beber. Joguei o chocolate na bolsa, esqueci lá no fundo da mochila. Aquele dia anoiteceu e depois também me esqueci da mochila, que joguei num canto. O dia do chocolate já passou tem muito tempo e ontem eu lembrei da minha mochila, me esquecendo do chocolate. Peguei ela, e carreguei com algumas coisas minhas. Quando tirei de volta as tais coisas, vi o rosto da mulher no sujo vagão de trem. O chocolate dela tava lá no fundo da mochila, fazendo farra. Esparramado e derretido, tomou conta da mochila e de minhas coisas. Grudou em minha caneta, deixou seu cheiro nas peças de roupa e o gosto nas fotografias. até em minhas orelhas, tinha chocolate.
 

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Contra-tempo noturno

  Depois de um dia de trabalho, cheguei em casa torpe. 
  Ainda com os farrapos sujos de tinta, riscas de pincéis de filetes, trinchas e rolinhos de espuma. Meu calção deixava à mostra minhas belas pernas russas de poeira e tão magras, feito uma cambucira. A bunda da calça, preta - de tanto me arrastar pelo chão. Um dia de cão, era oque eu havia tido. 
  Abri a porta trêmula, errei a entrada da chave ao menos umas três vezes. Como não sentia muito minhas pernas, joguei meu corpo contra a parede, para nela me equilibrar até a cozinha, onde havia uma cadeira. Lá sentei e fiquei durante algumas horas, olhando para a garrafa de água gelada em cima da pia, um copo limpo do lado. Não tive forças para ir até ela, pois minhas pernas furmigavam e meu corpo estava tão parado, tão estátua que eu fiquei com medo de me mexer, talvez quebrasse um dedo, se assim o fizesse. Luana me viu e entendeu meu profundo desejo de saciar a sede; trouxe o copo até mim. E jogou a água na minha cara, que era pra eu "acordar". Depois disso, bebi o que sobrou no copo e decidi terminar o banho no chuveiro.
  Depois de um banho, as coisas clarearam um pouco, ficaram mais limpas e cheirosas. Empurrei a porta de meu quarto e fui abrindo espaço com os pés, afastando roupas sujas, livros bons, livros ruins, partituras e algumas maquiagens  - a Rafha é muito bagunçeira. Por fim, encontrei meu colção esmirradinho que jazia no chão, que um dia vai afinar e sumir e vai virar chão também; esse vai ser o dia em que vou comprar uma cama. Antes de me deitar, meu olho correu o quarto e passou pela janela. Havia algo de errado acontecendo lá fora; meus ouvidos que aos poucos iam se abrindo para o mundo, confirmaram oque meus olhos não podiam acreditar: era dia de jogo.

  Meus ouvidos detectaram um som que começava baixinho, e gradativamente foi aumentando; podia visualizar as mãos do diabo girando o botão do volume. Porcos mesmo é oque eles são; malditos porcos gruindo a noite inteira, gritando, orgulhosos de sua estupidez.  Fechei a janela, com a esperança de abafar o som. Mas como num revide, eles passaram a gritar ainda mais alto. Me deitei e joguei a cabeça pra debaixo do travesseiro, apertei as mãos contra meus ouvidos. Ainda mais alto.
 Contei elefantes, cantei Gal, proferi o Om algumas vezes e respirei e inspirei. Tentei meditar, pensar em coisas boas. Mas aquela vara em couro gruía em minha alma; minha pulsação sanguínea corria em ondas no ritmo daquele barulho infernal. Meditei mais um pouquinho, e lembrei-me do lança-rojão AT-4 que eu guardo em meu armário.

 Com três disparos, direcionados para pontos diferentes das arquibancadas, consegui eliminar por completo o barulho incômodo e dormi feliz, até sonhei que voava.



sábado, 7 de novembro de 2009

O Molho

- Hélio, olha o alho no óleo! ô Hélio, olha!

Hélio anda meio 
desligado.
 Vai comer macarrão com molho torrado.








quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Contra-tempo

 Para mais um dia de trabalho, acordei torpe. Meu estômago se revirava sem parar, estava de ressaca sem haver bebido, sequer sentido o cheiro de álcool. O céu cinza incitava ainda mais meu mal-humor. Peguei a blusa de frio no varal, cheirava a gordura de porco; eu sempre digo para que fechem a porta da cozinha. Seria melhor que não comessem porco frito. Ou qualquer coisa frita, mas comem. E nem fecham a porta. Por fim, saio à rua cheirando à gordura velha de porco frito; porque só tinha essa blusa que, assim como o céu, era cinza.
 Enquanto o elevador descia, me ocupava em contar os números dos andares, que estão pintados nas paredes de cimento; que estão pintadas com uma precária mão de cal. Dá pra vê-los através da gradezinha da porta; é um prédio antigo. Moro no décimo andar e sempre me canso de contar na altura do quinto. Me imagino como personagem de Jogos Mortais, e estremesso. Dei uma olhada pra câmera e, pronto. Já estava no térreo. Cambaleei até o ponto de ônibus.
  O ônibus como sempre, estava cheio. Continuei cambaleando dentro dele, numa prova de equilíbrio diário. Mantive-me de pé me apoiando nos ombros e encostos de poltrona. O segundo ônibus que pego está sempre vazio: me sentei agradecida.
 Chegando enfim ao destino, atravessei o sinal correndo, pois estava vermelho pra mim. No final daquela rua é o atelier; uma caminhada de 5 minutos. Pensei em sacar meu Ipod da bolsa, mas tive preguiça. Já havia me enfartado do album de Nina Simone, o único que tem em meu aparelho. Improvisei algum som baixinho, com assobios e falsetes desafinados. 
 Já quase na metade do caminho, um carro me parou e nele, um homem me pediu uma informação. Eu fui simpática, adoro dar informações corretas. Gesticulei, lhe descrevi minuciosmente o caminho a ser traçado. Em forma de agradecimento, talvez, o pobre homem abriu o zíper e trouxe à tona sua miserável genitália, a qual ele balançava como um chucalho insôso, sem som nem graça.  
  De início, fiquei sem ação. O homem tinha uma cara deprimente, um olhar falso e criminoso. Depois, minha reação foi medíocre, até ingênua.  "Enfia isso no teu cú.", eu disse.  O homem obviamente não gostou. Era agressivo, abriu a porta do carro e veio vagarosamente em minha direção. Oque antes se equilibrava no ar como uma gelatina balançante, agora estava firme e grande, apontado para mim como uma arma mortal. Eu ri. Me lembrei do estilete que trazia comigo, a lâmina novinha, ainda com o óleo anti-ferrugem. Quando ele me prensou contra a parede, não tive receio algum em lhe agarrar o pinto com uma mão e, com a outra, aplicar-lhe um golpe certeiro com a arma caseira. Sobrou uma pele, que eu arranquei com um puxão veloz. Tinha agora seu pênis em minha mão, e resolvi eu mesma botar em prática aquela idéia inicial. Aquela ingênua exclamação de antes tomou ares mais sérios e reais.  "Enfia isso no teu cú".  Se ele não quiz fazer, eu mesma  fiz pra ele.

Limpei as mãos na camisa do homem que, de tão covarde, sequer gritou de dor; desmaiou antes de emitir qualquer som. Joguei fora a lâmina de sangue, e continuei a andar. Péssimo contra-tempo. Desta vez achei que Ain't Got no...I've got life cairia bem.


domingo, 25 de outubro de 2009

Uma foca, ou uma ostra.

   Aproveito o tempo livre para ler. Em casa eu leio Sexus, de Henry Miller. No caminho pro trabalho eu leio um livro de cronicas de Fernando Sabino que se chama "A inglesa deslumbrada". O leio no ônibus porque é leve, fino e são textos curtos.


   O livro do Henry Miller é pesadão, grosso. Eu prefiro o ler deitada na cama, como uma foca, que se move arrastada. Isso me lembra de quando eu tinha uns dez anos e passava a a tarde inteira deitada na cama, o livro aberto também deitado, colado no rosto. Eu me virava a medida que trocava de página; a página esquerda de pé, virava e deixava a página direita de pé. Tudo para tornar as coisas mais cômodas.  Dá pra ficar um dia inteiro assim. O único problema é que agora eu uso óculos: tenho medo que ele quebre enquanto apoio a cabeça no travesseiro. Por isso o tiro, e trago o livro ainda mais pra perto.
   Eu sempre tive problemas com ruídos alheios pelo ambiente enquanto tentava manter a atenção numa leitura. Aqui eu mudei isso. Toda noite eu abro Sexus pra ler, não importa que as meninas estejam assistindo novela na TV, que fica em cima da minha cabeça, com ruídos baixos e constantes (que aos poucos poderiam me levar à loucura); não importa que elas estejam se comunicando com gritos. Eu me concentro bem, nem escuto mais nada. E viro uma ostra.
 

sábado, 10 de outubro de 2009

Ter medo de morrer é um vício. Um estranho vício que tem seus momentos de glória. Meu derradeiro momento, enxurrada de medo correndo pelas veias, foi mês passado, quando voava de volta pra São Paulo. Pela Tam. Fiz conexão no Rio. Era cedo, 8 horas da manhã, e o sol preferiu os cariocas aos capixabas; à mim. Havia passado tres dias sob infindáveis nuvens negras, que pareciam estar ali só mesmo pra me castigar pelos meses sem ir pedir a benção à mãe. Mas eu fui buscar o sol por alguns minutos lá no Rio. Devia ter mesmo ficado por lá, até pensei em ignorar meu trabalho. Poderia dalí mesmo pegar um ônibus pra Ipanema e apertar o interfone do meu irmão. Sei que ele tem um quartinho de empregada, poderia dormir alí por uns dias. Tinha dinheiro no cartão de débito. Até abri a carteira, com um certo medo de que pudese mesmo fazer isso, mas pena, havia deixado o cartão em São Paulo. Melhor esperar, pegar mesmo aquele avião. O dia tava bonito e faríamos um vôo tranquilo até Congonhas.

Eu odeio meios de transporte rápidos. Eu tenho medo de velocidade, de latarias com rodas e latarias com rodas e asas, onde agente tem que entrar, ficar sentado esperando pra chagar no destino. Eu gosto de trens porque são mais lentos. Não sei oque dizer de trens bala pois nunca estive num. Além de trens, eu gosto de barcos, bicicletas e também gosto de minhas pernas.
Apezar de saber que o avião é mais seguro que minhas próprias pernas, eu preferiria ir andando. Gostaria de ter tempo pra isso. Mas peguei um avião. E tava lá, na poltrona do meio, a mais odiosa de todas, a mais incoveniente. A Azul não tem poltronas do meio, e nunca um avião da Azul caiu. Deveria estar num avião da Azul, pra início de conversa. Se teria mesmo que estar num avião, melhor estar num avião decente, sem poltronas do meio.
Do meu lado esquerdo, sentou-se um magrelo de 40 anos, com uma cara porca, fingia que lia a revista que tinha Hebe Camargo na capa. Do meu lado direito, um babaquinha executivo que mantinha um sorrisinho de Mona Lisa na cara. No meio, estava eu, com um livro do Fernando Sabino aberto. Também fingindo, porém bem melhor que o magrelo de 40 anos. Porque eu não consigo ler dentro de um avião. Eu só consigo ter uma aspiração em mente: continuar viva. E nessas horas, seria mais coerente se eu estivesse lendo uma bíblia.
A hora da decolagem é como uma injeção de amor à vida. Derrepente eu adoro o mundo, e não quero deixá-lo. Trabalhar era muito bom, aquele cheirinho de água raz, como eu gostava. Nem era tão chato assim ficar batendo a escova na parede pra fazer aquela pátina, ou sentir falta de pegar a fila pra entrar no Cohab Antartica, toda santa noite na Teodoro Sampaio. Viver é maravilhoso, como pûde chegar a pensar que não? E agora esse avião vai despencar, vou sentir um medo tão grande que calculo que vá morrer antes de qualquer explosão. Menos mal. As turbinas vão bem por enquanto, que bom. Alice me disse que, apartir da decolagem, existe um tempo de 14 segundos em que a situação é mais crítica; as chances de que ocorra alguma falha de turbina é enorme. Ela diz que, passados os segundos de tensão, respira aliviada. bobagem. Depois dos 14 segundos que ela diz, existe o resto da viagem inteira pra que o avião caia.

Durante o percurso, o sol foi nos deixando pra trás. Era um plano das nuvens, me seguir aonde é que eu estivesse. Mas elas pegaram pesado, e enquanto a tripulação se preparava para a decolagem, elas foram ficando cinzas demais, escuras demais, e quando íamaos descendo, fomos presenteados com rajadas de vento, chuva e, meu deus, granizo. Sinceramente, eu não gostaria de morrer em São Paulo. Havia imaginado uma cremação, minhas cinzas jogadas ao mar. E queria uma morte tranquila, de velhice, durante um sono. Não queria isso. Minha mãe ia ficar muito triste, talvez até morresse de tristeza.
Fechei os olhos e me encolhi. Deveria ter sido um alívio, mas foi a mais aterrorizante sensação de minha vida: estávamos quase tocando o solo quando subimos denovo. esmaguei meus olhos para que se fechassem ainda mais. Um ataque de pânico é algo absurdadmente ridículo para quem olha de fora. O medo de morrer atropela tudo e quer antecipar a morte. O corpo cai, mole da poltrona, como se quisesse dizer: olha, tá bom, já tô morta, não precisa disso tudo, não. O medo é seguro de si, ele tem certeza de que uma merda vai acontecer. O tremor era incontroável, e as lágrimas escorriam em memória à tudo oque eu já havia feito e em especial, à tudo oque eu não fiz. Tudo oque eu iria fazer: frustração. Minha mãe. Meu irmão e meu pai. O trabalho inacabado, a roupa secando no varal, os livros que eu ainda não li, esperando na estante. O meu diário, chorariam lendo o meu diário. E este blog.

*

O pouso em Campinas por fim, foi uma injeção de alegria e gratidão por estar viva. E afinal de contas, o medo que eu senti naquele dia, aposto que foi tão aterrorizante quanto um abraço da morte. Mas é um vício que não sei se consigo largar.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Lettre ouverte

Eu continuo lembrando do seu nome quase todos os dias. Principalmnte quando me sento no banco do ônibus e olho pela janela; naquela época tudo oque via eu queria contar pra você. Hoje eu não quero contar mais pra ninguém, porque não há alguém que eu quero que ouça simplesmente. Só você servia, só você receberia as minhas palavras da maneira que eu sempre sonhei que elas fossem recebidas, e faria o comentário da maneira exata que eu gostaria de ouvir. Naquela época eu trabalhava numa obra em que pintávamos com tinta a óleo. Me vejo perfeitamente, diluindo a tinta com o líquido de terebentina, óleo de linhaça e secante. Hoje quando trabalho com óleo, eu fico trisite. Porque eu me lembro lembrando de você.

Tínhamos muito oque falar sobre Milan Kundera, Chico Buarque e o caos do universo. Um dia, em horário de almoço, me debruçei sobre o umbral da varanda do prédio, estava no quinto andar. Ouvia as palavras de Kundera a respeito da vertigem, e senti vontade de pular. Mas logo me lembrei de você novamente, e de que precisava lhe contar essa experiência, essa vontade, todo aquele instante. Sentava-me numa tábua de madeira de obra, e tentava imaginar a solidão, e me perguntava oque você pensava sobre isso, ou aquilo. Eu não sou uma filósofa, estou muito longe disso. Meus questionamentos não eram – talvez estejam se tornando – verdadeiros. Eu nem mesmo pensava; apenas tranformava tudo num teatro aparentemente poético, fingia estar pensando e chegava até a alguma conclusão, mas era só para que no fim do dia, ao encontrar seu nome na lista de pessoas on-line no meu msn, eu pudesse lhe dizer algo diferente; transformar a nossa conversa em algo completamente estranho de tudo oque já havia acontecido na minha vida e principalmente na sua. E eu consegui, ao menos de minha parte.

Estou escrevendo para um plano que não deu certo. Não um plano, usei mal a palavra, plano parece algo milimetricamente calculado, formulado, com o uso tão somente da razão. Quis dizer que escrevo para um sonho. Um sonho: vem antes do plano. O sonho é pura sensibilidade, algo completamente inconsciente. A razão não tem muito espaço na cabeça de um sonhador. Um sonhador se move no ritmo do coração. Um sonhador não vive. Ele sonha. E oque foram todas aquelas linhas, aquelas milhares de linhas escritas durante aqueles poucos meses que me pareciam anos, senão pura pulsação cardíaca, como aquelas linhas que sobem e descem no visor de um cardiograma, numa sala gelada de hospital?


“Até um dia em que o destino seja mais generoso com nós dois”. Eu me lembro de ter escrito algo parecido com isso, pra você. E eu ainda acredito que esse dia vai chegar. Mas só acredito nisso quando me sento num banco de ônibus, e olho a cidade pela janela.


quinta-feira, 13 de agosto de 2009

Não quero mais adjetivos.
Eles ferem criaturas, eles brincam comigo.
Os adjetivos não fazem arte. 
Eles são os empresários, salafrários
que querem mandar, estipular partes
e salários.
Querem fazer e desfazer artistas.
Adjetivos são frios e calculistas.
Adjetivos são manobristas 
de gente.
Eles são os únicos que merecem 
ganhar adjetivos de presente.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

pequeno ensaio sobre o desabrochar de uma mochila

Tenho orgulho de minha mochila cansada, surrada. Vestígios de sua cor original quase não existem mais. Já passou por algumas amputações e cirurgias de risco em geral; prova disso são os remendos que ela traz à mostra, orgulhosa.  Não gosta que tenham pena dela, simplesmente não vê motivo para que pensem assim. Eu também acho. 
Concordo que com a idade, o descanso é necessário. Por isso, lhe dou uma colher de chá, procurando não usá-la todos os dias, só tirando ela de seu canto quando é absolutamente necessário.  De qualquer maneira, ela é teimosa. Não gosta do ócio. Reclama por trabalho mesmo sabendo que isto lhe custará dores nas alças durante a noite.

Quando nova, logo após que a pari daquele plástico transparente que a embalava, eu a privava de muitas coisas. Talvez erre em aplicar o verbo "privar". Prefiro dizer que era um cuidado que eu tinha, para preservar sua infância, mante-la pura o maior tempo possível. Limpa, com aquele cheirinho de fábrica. Por exemplo. Ao subir num ônibus lotado, fazia grande esforço para trazê-la junto à mim; nunca cedia à imensa vontade de jogá-la ao chão, pô-la entre os pés. Apelidei-a de "pequena".
     Nessa época, eu ainda frequentava a escola. Enquando as outras mochilas, emancipadas e independentes, pousavam livres sobre o piso de madeira, a minha pequena, sempre pendurada pelas alças bem junto às minhas costas, para que eu estivesse segura de que ela estava ali, comigo.
     Mas isso durou apenas um mês. Num terrível dia nublado na ilha, a pequena e eu tomamos um belo banho de chuva. Cheguei na sala de aula com um humor pouco agradável, daqueles que trazem à tona todo o sarcasmo contido nos dias de sol. A primeira vítima de meu amargo veneno, naquela manhã, fora minha mochila que, apartir daquele dia, deixaria para sempre de ser a "pequena".  Joguei-a no chão mesmo. Como ela tinha pouca prática, não conseguiu ficar de pé. Caiu. E eu não ajudei. Não me arrependo.  A olhei de cima, ela estava lá, jogada ao mundo, uma mochila-moça, descobrindo a vida. Sorri. De um gesto impensado, impulsivo, eu acabei por lhe dar um grande presente. Naquele momento, ela deixava de ser uma criança.

sábado, 8 de agosto de 2009

Fuja dos assentos amarelos!

- Por favor, senhora. Sente-se aqui.
- Como assim?
- Ora, só estou cumprindo a lei e lhe oferencendo o lugar, que é da senhora por direito. 
- Quantos anos você acha que eu tenho?
- Não faço muita idéia, senhora.
- Acha que tenho mais de 60 anos, é isso? E por favor pare de me chamar de senhora.
- Não pensei muito sobre o assunto. Apenas detectei fios brancos e achei melhor não arriscar. Não quero passar por mal-educada e sem coração.
- Ora, nessa sua tentativa de parecer boazinha, acabou me ofendendo.
- Me desculpe, senhora. Não poderia imaginar que a senhora não gostasse de ser chamada de senhora. Então não tem 60 anos?
- O importante não é a real idade, é a aparência. Me julgou pela minha aprência, logo ou eu aparento ser mais velha do que realmente sou, ou tenho a aparência diretamente proporcional à minha idade. Qual então é seu palpite?
- Eu não sei, apenas imaginei que a senhora tivesse o direito de se sentar neste assento.
- Por ter 60 anos ou mais que isso?
- uhm.. não sei oque dizer agora...por ser mais velha que eu!
- Está bem, mocinha. Agora saia daí que este lugar é meu.

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Não me diga uma coisa dessas minha filha ah não.
Isso é uma coisa que não dá para aguentar esse homem era um doido onde já se viu abusar assim de crianças esse Michael Jackson era um filho da puta. Como é mesmo o nome eu sou corinthiano não consigo falar isso como é? Pedo pedofilia é assim é oque ele era um pedófilo maluco mas agora eu quero trocar de assunto vamos trocar de assunto eu quero falar sobre meu corinthians  e você me vem com esse papo de Michael Jackson com tanta coisa boa pra dizer você me vem com esse papo eu não acredito nisso. Michael Jackson? Maluco maluco maluco um homem sem vergonha como pode alguém ficar milionário e pegar as criancinhas ele ia dormir com elas imagine uma coisa dessa ele era um maluco alem de maluco safado. Você uma moça tão bonita chega pra mim pra dizer que é fã de Michael Jackson como pode uma coisa dessas ser fã de pedófilo que abusava sexualmente de criancinhas e você gosta dele e vem me falar isso?
 Michael Jackson não me venha com esse papo por favor como você pode me dizer que é fã de um homem que abusa de criancinhas mas não quero mais falar deste homem por que ele era um safado maluco...





Não sei que fim levou o desabafo do velho, mas quando eu desci do ônibus e me virei para dar um ultima espiada, vi que o senhor levantou se e se sentou na minha cadeira, pra ficar mais perto da trocadora. que era fã do Michael Jackson.

sábado, 27 de junho de 2009

A pensão do pancadão

Pensão Dona Regina eu vou dizer como é que é:
primeira oportunidade, eu vou dar no pé.

Na pensão das dezessete não é mole, não.
Tem no meu querto duas cama, em cada cama dois colchão.

Mas aqui, cá entre nós, eu vou mandar um papo reto:
se dependesse da Regina, tinha cama até no teto.

Eu sempre me pergunto porque essa mulher tanto insiste
deve ser pelo dinheiro que ali tem tanto beliche.


Cante no ritmo do célebre "Morro do Dendê"

sábado, 28 de março de 2009

Vitóriazinha do meu coração

Sim, fiz uma boa viagem. Não vi nenhum acidente acontecendo, nem bandidos cariocas tentaram botar fogo em nosso ônibus ( até porque se tivessem tentado, com certeza teriam conseguido.) Ninguém sentou ao meu lado na poltrona: pude esticar as penas e me utilizei de dois cobertores e dois travesseiros para tentar dormir de uma maneira minimamente confortável: não era um Leito. Da última vez que fiz essa viagem de ônibus, São Paulo-Vitória, sentou-ao meu lado um homem comum que acreditava em Deus e tinha medo de morrer. Plenamente compreensível. Tentava manter um diálogo duradouro comigo, mas eu logo encontrei um jeito de despista-lo. Desta vez, sentou um homem de seus 50 anos a minha frente, que passou a viagem inteira oferecendo-me seu mp3. Talvez estivesse pensando que aquela minha cara inchada, e os olhos de peixe-morto fossem sinal de insonia, tédio. Pensou então em me oferecer um passatempo: ouvir música em seu aparelho que parecia um Ipod, mas não era. Que tipo de musicas haveriam de ter na playlist daquele sujeito? Não pude descobrir, pois não aceitei. No ônibus ainda havia um jovem franciscano com cara de carrasco, uma moça paulistana que tossia como alguém que fuma há 50 anos, uma serjipana que passou quase que metade da viagem aconselhando sua amiga, ao telefone, de que ela deveria trocar de emprego.

E então eis que atravessamos a velha ponte, chegamos na ilha, que apezar dos carros e das pessoas passeando por aí, me pareceu mais uma ilha-fantasma, com suas lojas falidas, seus prédios abandonados de marquizes segurando-se as pontas para não desmoronarem. O Palácio do Governo precisa de uma mãozinha de tinta. A Mesbla foi fechada pela polícia Federal; o presidente da câmara tá fazendo uma festa lá dentro com nosso dinheiro; Minha avó chorou quando me viu e meu avô pensa que eu moro no Rio de Janeiro. É, dizem que eu estou em casa.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Olá, blogueiros famintos por um pronunciamento meu!
Saibam que vos adoro, sempre sinto palpitar meu peito quando vejo que um comentário foi escrito. Eu realmente amo isso daqui, mas...

Não, eu não estou me despedindo. Apenas vim dizer que estou viva, consciente e mais velha. Os vinte anos me atingiram. Sempre tive a impressão de que nunca fosse ter vinte anos, mas o dia chegou. E dizem que daqui pra frente, as coisas ficarão mais preocupantes, e o tempo passará mais depressa. Estou percebendo... já tenho 20 anos e 5 horas de vida(!) Não consigo parar de pensar que um dia, eu precisarei ter 90 anos. Também me disseram para não pensar nos meus 90 anos, porque assim se envelhece ainda mais rápido. Ok, não vou pensar em nada disso. Vou seguir todos aqueles conselhos que se ouve nas letras de músicas bonitas do nosso pop rock nacional. Principalmente aquelas músicas que foram escritas por gênios poetas que morreram aos 30 anos de idade, por overdose de cocaína. Eles sim, entendiam da vida.

Parabéns pra mim.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2009

primeira rima com ímã (de geladeira)

Parfois ses yeux sont tranquilles.
quand il regarde la jeune fille,
il chante plus sonore qu'un grenouille!

sábado, 10 de janeiro de 2009

Cena no salão de beleza - a depiladora

No salão de beleza.

- Depilação de virilha?
- É. Isso aqui tá um horror.. - risinho acanhado.
- Imagina, normal.
- Fiquei um tempo tempo sem fazer, sabe. Muito trabalho. Cresce muito rápido. - fala enquanto deita-se na maca.
A depiladora esquenta a cera, enquanto ouve a cliente.
- Lindo, o seu cabelo...
- Ah, obrigada.
- Sabe, eu acho pêlo uma coisa horrorosa no ser humano.
- Imangina, normal.
- Ah, mas eu acho feio. E incomoda, agente tem que vir tirar, sempre...
A cliente deitada na maca, com as pernas abertas. A depiladora, passando a cera quente e verde por toda a virilha da moça, com uma espátula. A depiladora ouve a cliente, enquanto trabalha hábilmente com a máquina-esquentadora-de-cera.
- Não sei porque agente tem isso.
- Ah, querida. Não reclame. Deus sabe oque faz. - coloca um pedaço de plástico tampando a cera.- Ele faz tudo direito e no lugar certo, pra eu poder ganhar o meu dinheiro. - e arranca o plástico com cera e pêlos. E arranca também um gemido da pobre moça.





domingo, 4 de janeiro de 2009

O medo de avião

Viajar de avião é algo absolutamnte seguro. Insegura sou eu!

sábado, 29 de novembro de 2008

Relatos sobre Dona F

A Dona F diz que mora longe, lá onde é a curva que dá para o fim do mundo. Mas depois admite ser exagero, e fala que é o trânsito que torna tudo mais distante. Dona F fica no apartamento onde trabalha durante a semana, e vai aos sábados para sua casa. Já no domingo, tem que voltar. 
Seus filhos estão na Paraíba. Ficaram por lá mesmo, ela veio sozinha. E aqui, casou-se novamente. Seu marido é "um doido", como ela mesma gosta de enfatizar. Pela janela do quarto de seus patrões, entre um serviço e outro, ela pára e admira a vista. Confessa que dá vontade de sair fugida por aqueles cantos. Ela até que tem uma moto, mas não usa muito: acha melhor não sair com ela; já quase levou duas multas, mas os guardas a deixaram passar. Ela não tem carteira. Cena: Dona F conduzindo uma moto. É difícil não pensar em uma jaqueta preta, botas de couro e correntes de prata penduradas no pescoço, anéis de caveira... mas não, acho que este não é o estilo de Dona F. De qualquer maneira, naqueles trajes tipicos de faxineira-de-casa-de-rico, assim como nos filmes, não dá para se ter estilo. Ela parecia uma coisa, e só. Faxineira-de-casa-de-rico.

Dona F realmente não parece estar muito feliz, o olhar entrega o cansaço. Ela limpa o mijo que o poodle de dona G (essa sim, é realmente dona de alguma coisa!) distribui por toda a casa. Ele não se cansa de mijar, e nem de latir. Dona F também passa panos molhados nos móveis para tirar a poeira. "Poluição nessa cidade doida, eu passo agora e 1 segundo depois já tá tudo sujo denovo". Ela também é especialista em endireitar os quadros tortos nas paredes. Dona F não gosta da coleção de perfumes que Dona G tem no banheiro. Diz que não faz bem para a alma da pessoa, guardar coisas assim sem valor. Dona G não usa nenhum daqueles vidrinhos que ficam expostos nas estantes acima da pia. "Ela diz que foi presente da avó, e que não se faz mais. Nunca vi, guardar coisa pra não usar. Olha, nem se ela me desse, eu não havia de querer. Isso pra mim não tem valor nenhum. Pode ter pra ela, mas pra mim não tem". O Sr. M também faz coleção de coisas inúteis. Caixinhas de fósforo de hotéis. Ele tem três cestos grandes, cheios disso. Coisa de doido.

As vezes, ouve-se um "puta que pariu" aqui, ou um "desgraça" acolá. Dona F gosta de usar essas palavras. Dona F vai pegar o ônibus amanhã, e passar o dia com o marido preguiçoso. Dona F está esperando pelo próximo feriado para ir ao Nordeste, ver os filhos.



PS.: Texto escrito em Maio deste mesmo ano e postado em meu extinto blog, provavelmente, na mesma época. Nota importante: Dona F ainda não conseguiu ir á Paraíba.

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

FENÔMENO BLOG ENTOPE A REDE DE POESIA BARATA

Eu não seria assim tão certo.
Ninguém é perto da verdade.
A verdade é tão longe
que eu nem posso imaginar.
Um dia me disseram - mentira, certamente! -
com um sorriso de lindos dentes,  que "a verdade
está dentro da gente!"
Gente assim eu não vou considerar.
Acredito na mentira que quiser.
Eu acho mesmo é que a verdade
 não está em nenhum lugar.


Blogueira catadora de coquinhos, em mais uma tentativa risível de escrever poema.

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Especiais Bienal de Arte de São Paulo - The amazing renaissance of translucent faces


The amazing renaissance of  translucent faces, 2008 

Aqui, a artista Flora Ramos faz uma intervenção na obra de uma outra artista qualquer. Apenas filmando o vídeo reproduzido numa tela de TV, usando uma simples máquina digital, outros signos foram inseridos no vídeo em questão, de forma natural. O reflexo de pessoas que transitavam na sala, o efeito de estranhas faixas pretas que correm pela tela, efeito que se torna algo de grande valor estético, provocando cortes e um ar de tensão na cena. A imagem é de uma caveira sendo escovada por mãos femininas, com ajuda de água e sabão de coco. A banalidade de tal cena, ganha significado profundo com a intervenção feita pela jovem artista. O movimento que agora lhe é dado, o som confuso e a movimentação da câmera interventora, dão ao simples vídeo, um chocante ar de mistério, causando propositalmente, medo em quem o assiste. Essa obra é desconcertante, provocadora, incisiva.


quinta-feira, 6 de novembro de 2008

Desboicotou-se

Obama venceu as eleições nos Estados Unidos.
A primeira coisa que Alice fez, foi acabar com o seu embargo à compra de Coca-Cola.
Bebeu a noite inteira, sem dó.

sábado, 4 de outubro de 2008

- Oi, Tim! Vivo?
- Claro!

Bom, agora esse diálogo terá que mudar. Estreiou em agosto a operadora Aeiou. Possibilidades:

-Oi, Tim! Vivo?
-Claro, Aeiou! 

- Oi, Aeiou.
-Claro!
-Vivo, Tim... Vivo.

-Oi, Aeiou!
-Vivo!
-Tim , Claro...

-Oi! Vivo Aeiou.
-Claro, Tim.

-Oi, Aeiou.
-Tim! Vivo!
-Claro!

-Oi!
 Vivo Claro, Aeiou!
-Tim Tim!







sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Enjôo na estrada

Descia à Santos pela Imigrantes, e como não fazia nada durante o percurso, me empenhei em contar o número de caminhões da Hamburg Süd. Sim, já havia percebido há um tempo que é absurda a quantidade de caminhões vermelhos com esse nome aí escrito. Contabilizei 30, até um certo ponto, logo depois de passar por um pedágio. Perdi as contas, confundi os números, achei que já estava de bom tamanho. 30 caminhões, coisa pra cacete. Quando voltava, já a noite, e esquecida do passatempo matinal, a visão de mais alguns. Tentei procurar outros caminhões, outros nomes, pra sair um pouco daquela fixação, mas eu só conseguia ler Hamburg Süd, e minha ignorância não me deixava evitar a lembrança de um Hamburger tipo Mac Donald's. Mac Donald's me lembra coca Cola.
Hamburg Süd, Mac Donald's, Coca-Cola. Eca.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Dia desses, entrei num vagão de metrô onde haviam várias criaturas naquela fase obscura e ao mesmo tempo cintilante da vida - a adolescência. Shorts curtos, blusas coladas, bonés rosas em cabeças masculinas, tranças com detalhes coloridos, brilho na boca. Pernas frenéticas. Bundas que não paravam sentadas. Línguas incansáveis. Estavam fazendo um show naquele vagão. Contavam piadas e riam eles mesmos, em voz altíssima, quase gritavam. E algumas vezes, gritavam mesmo.
Confesso que tive vontade de rir em alguns momentos. Contive-me. Então, me senti uma velha. Todos que não faziam parte do grupo fingiam não reparar na bagunça que aqueles seres estavam a promover. Ou então viravam os olhos, torciam a boca, soltavam risinhos de ironia. E eu, eu também. Eu, que um dia já me afirmei surfista nos corredores dos ônibus em movimento, me equilibrando sem apoiar as mãos. Eu, que me arriscava em apresentar números complexos de estrelinhas duplas pelas calçadas. E ria loucamente até ficar vermelha na cara e produzir lágrimas, por entre estranhos de rostos emburrados, que passavam pelas ruas, sem nenhum tempo e paciência. Esses estranhos eram mesmo bem estranhos. Não viam graça nas coisas bobas, não tinham mais vontade de ter dores de barriga de tanto rir? Fiquei apavorada com essa lembrança: pelos meus cálculos, eu deveria ter me tornado uma estranha. O tempo passou e agora estou eu, sentada num canto olhando pra janela [vendo nada], sozinha, séria e com alguns problemas na cabeça. Tentando esconder que um dia eu fui ridícula assim, como esses adolescentes bestas, histéricos e indiscretos.
Uma menina loira que tinha tranças vermelhas jogadas pra trás e grandes olhos disse algo, que eu não me lembro oque era, mas não fazia sentido algum. Humor non sense? Soltei uma risada sincera, e gostei. Me empolguei, e lembrei de quando isso acontecia frequentemente, e ri por todos esses dias. Por todas as piadas que me vieram à memória. Entrei em desepero quando percebi que era eu a mais idiota de todos ali, mais que os adolescentes tapados, mais que os estranhos infelizes. E eu era sozinha. Os meninos se olharam, pararam o show. O show agora era eu, sentada num canto, me contorcendo de tanto rir. O desespero, me fez rir ainda mais. As estações foram passando, algumas pessoas desciam e eu continuava agonizando em minhas risadas, esforçando-me para não fazer muito barulho. Gargalhava em seco, muda.
Minha hora de descer chegou, e eu ainda ria. Enquanto andava, a empolgação diminuía, até que voltei ao meu estado normal. Lembrei dos rostos que vi no vagão. Os estranhos adultos e os adolescentes. Me safei de ser um ou outro.

sexta-feira, 15 de agosto de 2008

"Me imaginei com um revolver apontado contra minha própria cabeça e olhando um relógio de pulso"



Ele tem 24 anos. Vive numa cidade-ilha, mora com a mãe e a irmã. Já trabalhou numa banca de revistas, mas pediu demissão. Nunca fez faculdade, não tem interesse em prestar o Vestibular. Os leitores assíduos que conheceram meu blog antes de ele ter sido deletado [sem querer] por mim mesma, conhecem a saga deste jovem pela Borbilónia. Ouve Smashing Pumpkins e gosta de dormir. Seu grande anseio é não mais viver, e por isso planeja sua própria partida. Quando a entrevista foi proposta, demonstrando fino senso de humor, ele logo disse "Vai, zoa". Confira a entrevista bombástica que ele me concedeu, com muito gosto, via msn.




Flora :
Bob Tenso. Você tem planos de se matar... Pode falar um pouco sobre isso?
Bob:
Bom, tenho sim. Na verdade, eu queria apenas uma oportunidade heróica ou extremamente depressiva para tal. Sabe, todos dizem: todo mundo é triste, todo mundo tem problemas, e todo mundo blá blá blá...FODAM-SE todos os mundos!! Eu quero é saber de mim, e não gosto daqui. Quero "ir embora".
F: Você está esperando por uma oportunidade "heróica"? Você planeja a sua morte?
B: A palavra não é "planejar" e sim, estar ciente de que "situação x é uma boa oportunidade"
F: E o que pretende fazer depois de ir embora? Se é que pretende fazer alguma coisa.
B:Quando disse "ir embora" me referia a uma "ida sem volta", se é que você me entende...no caso, acho que não se tem muito oq fazer...tu "vai embora" e acaba..
F: O nada deve te atrair muito. Você medita?
B:Não...e não rezo, acho que ninguém escuta.
F: Você se preocupa em aproveitar o tempo que lhe resta antes de esvair-se?
B:Não, uma "boa oportunidade" pode vir tanto agora como daqui a alguns anos, e eu não sei muito aproveitar meu tempo...pra mim, tempo bem gasto é quando se esta dormindo..
F: A questão do suicídio é delicada. Você acha que existe preconceito em relação a isso? As pessoas têm vergonha de se afirmarem suicidas?
B:Tem. Fato. Geralmente não "somos" levados à sério até o ato ser consumado...e acho que que a vergonha vem do fato que um suicida que invariavelmente não " se suicida" é um babaca..
F: Quer dizer, que para alguém se afirmar suicida, é preciso que ele tenha total certeza de que vai se suicidar? Vejo então que você é firme nos seus conceitos.
B:Todos os conceitos são pré-requisitos de regras que tendem em alguma situação serem quebradas, estar ciente que se é um suicida é estar pronto pra uma decisão sem volta, acho que essa não é uma decisão do tipo "firme", você simplesmente faz ou não.
F: Quando pensei em te entrevistar, fiquei preocupada em te encontrar logo. Afinal, você pode morrer a qualquer momento. Poderia perder a oportunidade... Isso é radical. Você sente uma certa adrenalina, convivendo com isso? Ou não muda absolutamente em nada?
Se bem, que todo mundo pode morrer a qualquer momento.
Esqueca essa pergunta
B: Não. Adorei essa. Uma vez eu li a biblia e me deparei com um versicúlo: "Vigiais portanto, pois não sabeis o dia nem a hora".
Me imaginei com um revolver apontado contra minha própria cabeça e olhando um relógio de pulso. Outra coisa, um suicida em potêncial não quer "falhar", não quer deixar as coisas mais dificeis, cadeiras de rodas, CTIs, tu vai e tem que fazer direito. Adrenalina é oque não falta.
F: Tem medo da dor?
B: A dor é algo que todos tem medo. Se o objetivo primordial de um suicida for a ânsia de não mais sentir dor e seu ato só lhe trouxe mais ele terá falhado miseravelmente e não ajudará muito em sua "nova chance".
F: Precisa ser algo heróico, especial, e sem dor. Não é uma tarefa fácil. Você pesquisa os métodos mais indolores?
B:Não. Pesquiso os métodos infaliveis.
F: Existem muitos?
B:Diversos. Um dos meus favoritos é por monóxido de carbono.
F: Quer falar alguma coisa, algum recado para suicidas retraídos, ou indecisos?
B: Bom, primeiro.Tem que se ter certeza. Isso não é um esporte ou hobby. Não faz por simplismente estar triste, magoado... faz-se como se estivesse tomando a maior decisão da vida, você não vai ficar vendo oq os outros vão achar, você vai, faz e pronto.
E por último, se realmente for fazer faça direito por favor, já temos inválidos e retardados demais nesse país.
F: Você tem algum desejo, algo que queira fazer, em especial, antes de ir?
B: Não, isso pode me tirar do foco no instante derradeiro.
F: Nem um sorvete? Uma torta de morango?
B:Bom... no último minuto eu quero estar ouvindo música se possivel..
F: Alguma em especial?
B:Duas. Cara Estranho - Los Hermanos ou 1979 - Smashing Pumpkins, não sei qual escolher, mais uma das duas estaria perfeito.
F: Você tem bom gosto.
B:Obrigado.
F: Eu vou sentir sua falta.
B:Bom, eu sinto a sua. E isso não me faz esquece-la.
F: Para não fugir do foco da entrevista, e para finaliza-la, pode me dizer se imagina qual será a ultima coisa que vai pensar, ou lembrar, na sua vida?
B: Acho que no último instante meu cérebro ainda vai me recriminar com algo do tipo; "tem certeza cara!?!?"Meu coração vai pedir desculpas a minha mãe e irmã.E se der, quero sorrir.
Bom, estou ouvindo 1979, poderia ter sido agora ...

domingo, 10 de agosto de 2008

especial dia dos pais

Tarefa de hoje: diga ao seu pai que você o ama, dê a ele um presente e passe o maior tempo possível com o cara que te pôs no mundo [ou o cara que te recebeu quando você chegou por aqui]. Façam coisas legais juntos, um passeio no parque, visita à algum museu, de preferência de carros antigos. Jogo de futebol também é uma boa pedida. Se você for uma filha, provavelmente vai querer ir ao shopping, deixar que ele mesmo escolha o presente. Tem promoções imperdíveis: Camisa pólo, só 24,99. Calça jeans masculina, por apenas 49.90! Algumas pessoas optam por presentear os amados progenitores com contas telefônicas. Tem modelos com câmera, mp3, telas sensíveis ao toque. Fica à seu critério a escolha do presente. Só não pode ficar sem comprar um. Pega mal.
Quando saírem os dois às ruas, faça questão de chamar atenção para o fato de vocês serem pai e filho, filho e pai e vice-versa. É o teu pai, cara. É o melhor do mundo, nota 10. No concurso de Melhores Pai e Filho do Ano, vocês têm a obrigação de ganhar.
Conversem sobre vários assuntos, todos de forma superficial, não entrem em detalhes. O risco de atritos é grande nesses momentos. E você não quer azedar o dia, desapontando o teu velho. Ouçam musica, comam juntos. Façam um programa bacana, aproveitem que é domingo. Se fizer tudo dentro dos conformes, sem causar problemas e não esquecer do presente, parabéns. Tarefa cumprida.