No vagão sujo do trem, uma mulher quis me vender uma barra de chocolate. Chegou com várias barras iguais dentro de uma sacola branca e amassada. Ela não perguntou, jogou uma barra no meu colo e fez isso com todos que estavam sentados também - voltaria depois para
pegar o dinheiro. O chocolate tinha embalagem desbotada - e um nome desconhecido, pouco apetitoso. Seria arriscado, mas levei minha mão ao bolso e peguei as últimas moedas. Esqueci deste chocolate, só pensei nos chocolates como eram os que eu já sabia. Entreguei à mulher as moedas do bolso e abri a embalagem. A aparência era ruim, de chocolate com cacau de menos. Tinha mais as coisas que não são de chocolate. Ai, como era ruim o gosto daquilo que a mulher havia me vendido como sendo chocolate. Coitada de mim, fiquei com a lembrança na boca até encontrar água para beber. Joguei o chocolate na bolsa, esqueci lá no fundo da mochila. Aquele dia anoiteceu e depois também me esqueci da mochila, que joguei num canto. O dia do chocolate já passou tem muito tempo e ontem eu lembrei da minha mochila, me esquecendo do chocolate. Peguei ela, e carreguei com algumas coisas minhas. Quando tirei de volta as tais coisas, vi o rosto da mulher no sujo vagão de trem. O chocolate dela tava lá no fundo da mochila, fazendo farra. Esparramado e derretido, tomou conta da mochila e de minhas coisas. Grudou em minha caneta, deixou seu cheiro nas peças de roupa e o gosto nas fotografias. até em minhas orelhas, tinha chocolate.
4 comentários:
também pode ser interpretado como uma ótima alegoria =]
Tá parecendo eu.
Tenho medo de abrir minha mochila e encontrar um jacaré.
UHAUshsahuahsusa
Tua mochila deve ser como a minha, então
No trem daqui o lance é o polvilho..
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