Ainda com os farrapos sujos de tinta, riscas de pincéis de filetes, trinchas e rolinhos de espuma. Meu calção deixava à mostra minhas belas pernas russas de poeira e tão magras, feito uma cambucira. A bunda da calça, preta - de tanto me arrastar pelo chão. Um dia de cão, era oque eu havia tido.
Abri a porta trêmula, errei a entrada da chave ao menos umas três vezes. Como não sentia muito minhas pernas, joguei meu corpo contra a parede, para nela me equilibrar até a cozinha, onde havia uma cadeira. Lá sentei e fiquei durante algumas horas, olhando para a garrafa de água gelada em cima da pia, um copo limpo do lado. Não tive forças para ir até ela, pois minhas pernas furmigavam e meu corpo estava tão parado, tão estátua que eu fiquei com medo de me mexer, talvez quebrasse um dedo, se assim o fizesse. Luana me viu e entendeu meu profundo desejo de saciar a sede; trouxe o copo até mim. E jogou a água na minha cara, que era pra eu "acordar". Depois disso, bebi o que sobrou no copo e decidi terminar o banho no chuveiro.
Depois de um banho, as coisas clarearam um pouco, ficaram mais limpas e cheirosas. Empurrei a porta de meu quarto e fui abrindo espaço com os pés, afastando roupas sujas, livros bons, livros ruins, partituras e algumas maquiagens - a Rafha é muito bagunçeira. Por fim, encontrei meu colção esmirradinho que jazia no chão, que um dia vai afinar e sumir e vai virar chão também; esse vai ser o dia em que vou comprar uma cama. Antes de me deitar, meu olho correu o quarto e passou pela janela. Havia algo de errado acontecendo lá fora; meus ouvidos que aos poucos iam se abrindo para o mundo, confirmaram oque meus olhos não podiam acreditar: era dia de jogo.
Meus ouvidos detectaram um som que começava baixinho, e gradativamente foi aumentando; podia visualizar as mãos do diabo girando o botão do volume. Porcos mesmo é oque eles são; malditos porcos gruindo a noite inteira, gritando, orgulhosos de sua estupidez. Fechei a janela, com a esperança de abafar o som. Mas como num revide, eles passaram a gritar ainda mais alto. Me deitei e joguei a cabeça pra debaixo do travesseiro, apertei as mãos contra meus ouvidos. Ainda mais alto.
Contei elefantes, cantei Gal, proferi o Om algumas vezes e respirei e inspirei. Tentei meditar, pensar em coisas boas. Mas aquela vara em couro gruía em minha alma; minha pulsação sanguínea corria em ondas no ritmo daquele barulho infernal. Meditei mais um pouquinho, e lembrei-me do lança-rojão AT-4 que eu guardo em meu armário.
Com três disparos, direcionados para pontos diferentes das arquibancadas, consegui eliminar por completo o barulho incômodo e dormi feliz, até sonhei que voava.
3 comentários:
Corinthians.
Tu faz jus ao sobrenome que carrega, uma digna Fonseca de saias sujas de tintas. Porém, mais viajandona - pisciana, surrealista. Ferve-lhe ódio concentrado. Kaboom.
já eu uso a força jedi para estrangular aqueles que me incomodam.
eu teria morrido nesse estádio. sim, eu grito muito em dia de jogo.
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