segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Amor de trem e estrada


Era uma vez um trem muito, mas muito devagar. Ele era devagar porque era um trem triste. Mas um dia, ele ficou apaixonado. O Trem ficou apaixonado por uma estrada de asfalto.
O Trem fazia o seu melhor, mas a Estrada nunca lhe dava um olhar de volta. Mas esse Trem era especial e tinha certeza de que nunca desistiria de sua paixão. 
O Trem não sabia se aumentava  velocidade por conta de sua alegria ou se andava mais devagar para ficar mais tempo junto de sua amada, pois não sabia que tamanho ela tinha. Só que os trilhos eram ingratos com o Trem, pois eles chegavam perto da Estrada e depois se afastavam de novo, deixando o jovem apaixonado distante de sua amada.
Uma vez ele se distanciou muito da Estrada e, numa atitude desesperada, o Trem convenceu o maquinista para que ele fosse puxar a alavanca dos trilhos para mudar a direção deles, e estar mais proximo da sua Estrada de asfalto. Enquanto o maquinista ia até a alavanca bem lá na frente, o Trem esperou, esperou...




Enquanto ele esperava, um homem usando um chapéu de palha sem sapatos nos pés, passou andando ao lado do Trem. O homem parou e olhou profundo para o Trem, e lhe disse:
- Estou à pé. Posso ir com você?
O Trem respondeu:
-Pra mim, tanto faz. A única coisa que me importa é a paixão que sinto por certa dama Estrada.
Por ironia do destino, o homem conhecia a melhor amiga da Estrada: a Moto que andava solteira. O Homem era apaixonado pela Moto...
-Mas, disse o homem, eu sou como o vento, eu venho e vou quando sinto vontade e não posso me amarrar à uma responsabilidade por causa de uma paixão. Eu te desejo sorte, espero que a Estrada de asfalto te ame também! Mas você vai precisar de minha ajuda.
Então o Trem lhe abriu sua porta e o homem pulou para dentro. E o Trem pegou impulso trilhando agora o novo caminho. E então seus olhos brilhavam e seu coração batia mais forte, movido pela esperança de encontrar seu verdadeiro amor... a Estrada de asfalto.


O problema é que a Estrada era uma puta, recebia milhões de carros e caminhões diariamente, sem parar. Era esse seu destino de estrada; ela não poderia nunca ser do Trem e o Trem não poderia nunca ser dela. Mas o Trem era inocente e não havia atinado para isso.
Ainda iludido e ainda mais próximo da Estrada, o Trem tentou falar com ela, só que aí viu um caminhão novinho, com mais de 5 toneladas passando por cima de sua amada a 130 quilômetros por hora...

 
O Trem sentiu-se mal por isso. Ele disse:
- A Estrada de asfalto nunca irá me amar, existem tantos outros meios de transporte tão bonitos. Ela já deve estar apaixonada.
 O homem de chapéu de palha deu um sorriso de sábio e disse:
- Meu querido amigo, você precisa descobrir o caminho do coração dela! Ela ainda não ouviu sua música. Cante algo e ela se apaixonará por você!!
Então o Trem apitou tão alto quanto pôde:
- PIIIIIIIIIIIIUUUUIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIII
E pela primeira vez, a Estrada de asfalto se tocou da presença do Trem...e se emocionou com seu canto e quis também amá-lo. Ela teve nojo da sua vida promíscua de estrada diante da pureza daquele amor. Os carros barulhentos começaram a irritá-la e então houve um grande acidente de carro e todos os veículos foram batendo um no outro, até a Estrada ficar em silêncio. Aí então eles se olharam e o Trem parou e eles se amaram com o olhar. Aí ele entendeu que ela o amava também. Surgiu nela um sentimento diferente e ela lembrou que era de família tradicional mineira; aquela vida não era dela, as BRs que a cortavam que a fizeram assim. 
A Estrada nunca mais quis receber nenhum carro e de meio de transporte, só queria o Trem, que estava sempre ao seu lado. E então os dois passaram a vida viajando de leste para oeste ouvindo Jonny Cash.


Texto escrito por Flora Ramos, Savana Vagueiro e Syã Fonseca. 
Aos Farrapos editora.

4 comentários:

William disse...

Adorei!!!

Guilherme Ferreira disse...

se eu ajudasse a escrever esta história, o trem ia beber uísque aditivado no puteiro e a estrada estaria grávida! rs

Marcos Pedro disse...

Que bom que o Guilherme aí de cima não ajudou...

A inocência deu todo um charme ao texto...

Palavras gostosas...

Ivson Olivera disse...

HAhaha Mas peraí, Johny cash e whisky tem tudo a ver. Mas a estrada grávida seria mesmo bizarro XD