quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Contra-tempo

 Para mais um dia de trabalho, acordei torpe. Meu estômago se revirava sem parar, estava de ressaca sem haver bebido, sequer sentido o cheiro de álcool. O céu cinza incitava ainda mais meu mal-humor. Peguei a blusa de frio no varal, cheirava a gordura de porco; eu sempre digo para que fechem a porta da cozinha. Seria melhor que não comessem porco frito. Ou qualquer coisa frita, mas comem. E nem fecham a porta. Por fim, saio à rua cheirando à gordura velha de porco frito; porque só tinha essa blusa que, assim como o céu, era cinza.
 Enquanto o elevador descia, me ocupava em contar os números dos andares, que estão pintados nas paredes de cimento; que estão pintadas com uma precária mão de cal. Dá pra vê-los através da gradezinha da porta; é um prédio antigo. Moro no décimo andar e sempre me canso de contar na altura do quinto. Me imagino como personagem de Jogos Mortais, e estremesso. Dei uma olhada pra câmera e, pronto. Já estava no térreo. Cambaleei até o ponto de ônibus.
  O ônibus como sempre, estava cheio. Continuei cambaleando dentro dele, numa prova de equilíbrio diário. Mantive-me de pé me apoiando nos ombros e encostos de poltrona. O segundo ônibus que pego está sempre vazio: me sentei agradecida.
 Chegando enfim ao destino, atravessei o sinal correndo, pois estava vermelho pra mim. No final daquela rua é o atelier; uma caminhada de 5 minutos. Pensei em sacar meu Ipod da bolsa, mas tive preguiça. Já havia me enfartado do album de Nina Simone, o único que tem em meu aparelho. Improvisei algum som baixinho, com assobios e falsetes desafinados. 
 Já quase na metade do caminho, um carro me parou e nele, um homem me pediu uma informação. Eu fui simpática, adoro dar informações corretas. Gesticulei, lhe descrevi minuciosmente o caminho a ser traçado. Em forma de agradecimento, talvez, o pobre homem abriu o zíper e trouxe à tona sua miserável genitália, a qual ele balançava como um chucalho insôso, sem som nem graça.  
  De início, fiquei sem ação. O homem tinha uma cara deprimente, um olhar falso e criminoso. Depois, minha reação foi medíocre, até ingênua.  "Enfia isso no teu cú.", eu disse.  O homem obviamente não gostou. Era agressivo, abriu a porta do carro e veio vagarosamente em minha direção. Oque antes se equilibrava no ar como uma gelatina balançante, agora estava firme e grande, apontado para mim como uma arma mortal. Eu ri. Me lembrei do estilete que trazia comigo, a lâmina novinha, ainda com o óleo anti-ferrugem. Quando ele me prensou contra a parede, não tive receio algum em lhe agarrar o pinto com uma mão e, com a outra, aplicar-lhe um golpe certeiro com a arma caseira. Sobrou uma pele, que eu arranquei com um puxão veloz. Tinha agora seu pênis em minha mão, e resolvi eu mesma botar em prática aquela idéia inicial. Aquela ingênua exclamação de antes tomou ares mais sérios e reais.  "Enfia isso no teu cú".  Se ele não quiz fazer, eu mesma  fiz pra ele.

Limpei as mãos na camisa do homem que, de tão covarde, sequer gritou de dor; desmaiou antes de emitir qualquer som. Joguei fora a lâmina de sangue, e continuei a andar. Péssimo contra-tempo. Desta vez achei que Ain't Got no...I've got life cairia bem.


4 comentários:

William disse...

Literatura marginal da melhor estirpe.

Me recordo de quando eu era crianca e brincava no quintal pelas tardes
que eram (mais tardes, mais quentes) um cara parou em frentre ao portao e tirou a pica pra fora. haha. eu voltei correndo pra dentro.

tem criancas que veem fantasmas, assombracao, eu vi uma rola calejada.

Guilherme Ferreira disse...

já leu um livro de contos do Charles Bukowski chamado "Crônicas de um amor louco"? (tem dois volumes, o segundo se chama fabulário geral do delírio cotidiano).

eu recomendo fortemente!

e sobre o que você escreveu, eu que agradeço! e não, não escrevi um livro, mas um dia. eu meio que fiz uma promessa pro meu avô alguns anos atrás. um dia sai!

abraço, flora

Tatiane Trajano disse...

Noooooooooossa!
o filho da putinha jaz com o pau no cu.

he he he

Ei.. ficou muito interessante o seu texto.

Beijos

William disse...

Sim, essa foto SIM.