quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Lettre ouverte

Eu continuo lembrando do seu nome quase todos os dias. Principalmnte quando me sento no banco do ônibus e olho pela janela; naquela época tudo oque via eu queria contar pra você. Hoje eu não quero contar mais pra ninguém, porque não há alguém que eu quero que ouça simplesmente. Só você servia, só você receberia as minhas palavras da maneira que eu sempre sonhei que elas fossem recebidas, e faria o comentário da maneira exata que eu gostaria de ouvir. Naquela época eu trabalhava numa obra em que pintávamos com tinta a óleo. Me vejo perfeitamente, diluindo a tinta com o líquido de terebentina, óleo de linhaça e secante. Hoje quando trabalho com óleo, eu fico trisite. Porque eu me lembro lembrando de você.

Tínhamos muito oque falar sobre Milan Kundera, Chico Buarque e o caos do universo. Um dia, em horário de almoço, me debruçei sobre o umbral da varanda do prédio, estava no quinto andar. Ouvia as palavras de Kundera a respeito da vertigem, e senti vontade de pular. Mas logo me lembrei de você novamente, e de que precisava lhe contar essa experiência, essa vontade, todo aquele instante. Sentava-me numa tábua de madeira de obra, e tentava imaginar a solidão, e me perguntava oque você pensava sobre isso, ou aquilo. Eu não sou uma filósofa, estou muito longe disso. Meus questionamentos não eram – talvez estejam se tornando – verdadeiros. Eu nem mesmo pensava; apenas tranformava tudo num teatro aparentemente poético, fingia estar pensando e chegava até a alguma conclusão, mas era só para que no fim do dia, ao encontrar seu nome na lista de pessoas on-line no meu msn, eu pudesse lhe dizer algo diferente; transformar a nossa conversa em algo completamente estranho de tudo oque já havia acontecido na minha vida e principalmente na sua. E eu consegui, ao menos de minha parte.

Estou escrevendo para um plano que não deu certo. Não um plano, usei mal a palavra, plano parece algo milimetricamente calculado, formulado, com o uso tão somente da razão. Quis dizer que escrevo para um sonho. Um sonho: vem antes do plano. O sonho é pura sensibilidade, algo completamente inconsciente. A razão não tem muito espaço na cabeça de um sonhador. Um sonhador se move no ritmo do coração. Um sonhador não vive. Ele sonha. E oque foram todas aquelas linhas, aquelas milhares de linhas escritas durante aqueles poucos meses que me pareciam anos, senão pura pulsação cardíaca, como aquelas linhas que sobem e descem no visor de um cardiograma, numa sala gelada de hospital?


“Até um dia em que o destino seja mais generoso com nós dois”. Eu me lembro de ter escrito algo parecido com isso, pra você. E eu ainda acredito que esse dia vai chegar. Mas só acredito nisso quando me sento num banco de ônibus, e olho a cidade pela janela.


12 comentários:

Marta Z. Hiraoka disse...

em meus delírios matinais a cidade roda a mil pela janela suja do ônibus. devagar-lembre-se: estou sonolento-a margem de concreto vai oprimindo meu itinerário e vertiginosamente prédios e casas e outras carcaças adquirem silhuetas humanas, janelas são olhos semi-cerrados ou atrapalhados de abertos, bocas são a arte final do estranho simulacro... e eu continuo pensando: "pra onde, pra quê?"

M.T. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anônimo disse...

tirando a parte de pintar com tinta a oleo ..

tudo verdade

"Filosofias da Minha Vida" disse...

Meu amor,
Espero que o texto seja só um devaneio no ônibus,
Mas, se for realidade;
Pegue o ônibus certo, vá ao encontro dele e fala tudo pessoalmente.
Porque é melhor sofrer por ter, do que sofrer, por que nunca teve.


Um grande beijo.
da tia que te ama.

Carina disse...

uau!
Você escreve muito bem, achei lindo.
parabéns!

beijinho.

Ingrid disse...

Está lindo, poético e triste. E agora te imagino sentada junto à janela sentindo saudade do que nunca aconteceu.
Adorei, de verdade, e me despertou um sentimento que há tempos não dava as caras. Mas ele hoje é calmo e libertador, e acredite, o seu também vai ser um dia. ;)

Ingrid disse...

é uma insanidade quase industrializada!

Juliana Romano disse...

quando eu começei a ler o texto, imaginei o meu onibus, e vc (a personagem) sentada naquele lugarzinho onde eu costumava sentar.
terminei de ler com a mesma imagem na cabeça;

:)

Yell. disse...

Sempre achei ônibus uma coisa bem romântica, exceto quando apontam uma arma pra cima e anunciam um assalto... aí vira um aprendizado.

Deftones disse...

Sempre achei ônibus uma coisa bem romântica - eu também.

O que você fez, roubou minha vida? Minhas palavras? Minhas experiências? É tão estranho, ler e pensar que isso é mera lembrança minha, e não apenas um texto alheio perdido no universo virtual, mais infindo que o universo real. O fato é que temos alguns pontos semelhantes, isso me leva a crer que o mérito dessa historieta reside justamente em conseguir escrever por si - o que de fato importa - e por outrem; isto que somente aqueles que são realmente bons conseguem.

Vou descer nessa parada, agradeço pela viagem literária e saudosista... até a próxima.

Cecília disse...

Sempre que volto pra casa faço questão de rodar de ônibus. De preferência, no último da noite. O vazio.

Guilherme Ferreira disse...

esse seu texto é excelente. perfeito. parabéns.