Ter medo de morrer é um vício. Um estranho vício que tem seus momentos de glória. Meu derradeiro momento, enxurrada de medo correndo pelas veias, foi mês passado, quando voava de volta pra São Paulo. Pela Tam. Fiz conexão no Rio. Era cedo, 8 horas da manhã, e o sol preferiu os cariocas aos capixabas; à mim. Havia passado tres dias sob infindáveis nuvens negras, que pareciam estar ali só mesmo pra me castigar pelos meses sem ir pedir a benção à mãe. Mas eu fui buscar o sol por alguns minutos lá no Rio. Devia ter mesmo ficado por lá, até pensei em ignorar meu trabalho. Poderia dalí mesmo pegar um ônibus pra Ipanema e apertar o interfone do meu irmão. Sei que ele tem um quartinho de empregada, poderia dormir alí por uns dias. Tinha dinheiro no cartão de débito. Até abri a carteira, com um certo medo de que pudese mesmo fazer isso, mas pena, havia deixado o cartão em São Paulo. Melhor esperar, pegar mesmo aquele avião. O dia tava bonito e faríamos um vôo tranquilo até Congonhas.
Eu odeio meios de transporte rápidos. Eu tenho medo de velocidade, de latarias com rodas e latarias com rodas e asas, onde agente tem que entrar, ficar sentado esperando pra chagar no destino. Eu gosto de trens porque são mais lentos. Não sei oque dizer de trens bala pois nunca estive num. Além de trens, eu gosto de barcos, bicicletas e também gosto de minhas pernas.
Apezar de saber que o avião é mais seguro que minhas próprias pernas, eu preferiria ir andando. Gostaria de ter tempo pra isso. Mas peguei um avião. E tava lá, na poltrona do meio, a mais odiosa de todas, a mais incoveniente. A Azul não tem poltronas do meio, e nunca um avião da Azul caiu. Deveria estar num avião da Azul, pra início de conversa. Se teria mesmo que estar num avião, melhor estar num avião decente, sem poltronas do meio.
Do meu lado esquerdo, sentou-se um magrelo de 40 anos, com uma cara porca, fingia que lia a revista que tinha Hebe Camargo na capa. Do meu lado direito, um babaquinha executivo que mantinha um sorrisinho de Mona Lisa na cara. No meio, estava eu, com um livro do Fernando Sabino aberto. Também fingindo, porém bem melhor que o magrelo de 40 anos. Porque eu não consigo ler dentro de um avião. Eu só consigo ter uma aspiração em mente: continuar viva. E nessas horas, seria mais coerente se eu estivesse lendo uma bíblia.
A hora da decolagem é como uma injeção de amor à vida. Derrepente eu adoro o mundo, e não quero deixá-lo. Trabalhar era muito bom, aquele cheirinho de água raz, como eu gostava. Nem era tão chato assim ficar batendo a escova na parede pra fazer aquela pátina, ou sentir falta de pegar a fila pra entrar no Cohab Antartica, toda santa noite na Teodoro Sampaio. Viver é maravilhoso, como pûde chegar a pensar que não? E agora esse avião vai despencar, vou sentir um medo tão grande que calculo que vá morrer antes de qualquer explosão. Menos mal. As turbinas vão bem por enquanto, que bom. Alice me disse que, apartir da decolagem, existe um tempo de 14 segundos em que a situação é mais crítica; as chances de que ocorra alguma falha de turbina é enorme. Ela diz que, passados os segundos de tensão, respira aliviada. bobagem. Depois dos 14 segundos que ela diz, existe o resto da viagem inteira pra que o avião caia.
Durante o percurso, o sol foi nos deixando pra trás. Era um plano das nuvens, me seguir aonde é que eu estivesse. Mas elas pegaram pesado, e enquanto a tripulação se preparava para a decolagem, elas foram ficando cinzas demais, escuras demais, e quando íamaos descendo, fomos presenteados com rajadas de vento, chuva e, meu deus, granizo. Sinceramente, eu não gostaria de morrer em São Paulo. Havia imaginado uma cremação, minhas cinzas jogadas ao mar. E queria uma morte tranquila, de velhice, durante um sono. Não queria isso. Minha mãe ia ficar muito triste, talvez até morresse de tristeza.
Fechei os olhos e me encolhi. Deveria ter sido um alívio, mas foi a mais aterrorizante sensação de minha vida: estávamos quase tocando o solo quando subimos denovo. esmaguei meus olhos para que se fechassem ainda mais. Um ataque de pânico é algo absurdadmente ridículo para quem olha de fora. O medo de morrer atropela tudo e quer antecipar a morte. O corpo cai, mole da poltrona, como se quisesse dizer: olha, tá bom, já tô morta, não precisa disso tudo, não. O medo é seguro de si, ele tem certeza de que uma merda vai acontecer. O tremor era incontroável, e as lágrimas escorriam em memória à tudo oque eu já havia feito e em especial, à tudo oque eu não fiz. Tudo oque eu iria fazer: frustração. Minha mãe. Meu irmão e meu pai. O trabalho inacabado, a roupa secando no varal, os livros que eu ainda não li, esperando na estante. O meu diário, chorariam lendo o meu diário. E este blog.
*
O pouso em Campinas por fim, foi uma injeção de alegria e gratidão por estar viva. E afinal de contas, o medo que eu senti naquele dia, aposto que foi tão aterrorizante quanto um abraço da morte. Mas é um vício que não sei se consigo largar.
Marchinhas+Política=OcupaCarnaval<3
Há 12 anos
4 comentários:
Gostei da crônica(?) mórbida. Daqui a pouco a gente irá precisar entrar naqueles grupos "Perca o medo de voar" Confesso que só fico tranquilo quando os trens de pouso tocam o chão. Já te falei do Rivotril embaixo da língua?!
É aquela velha história, qualquer tremida no avião e o cara deixa de ser Ateu na hora. Hehe.
Beijo.
Que crônica maravilhosa!!!
Tô aqui me perguntando pq é tão bom ler um texto sobre o medo de alguém, sobre o pavor... Enfim... PQ?
É extremamente bem escrito, mas o que isso signifca? Justifica o fato de gostar de alguma coisa mórbida? - Uma vez eu li que a arte é boa quando consegue comunicar sentimentos... Comunicar vc conseguiu, mas aí tá o problema, pq eu gostei do que você passou? pq gostei do medo?
É algo como andar de montanha russa?
Enfim... Tô viajando d+ né?
Meu amor,
Sem palavras...
Numa hora dessa esqueça tudo e tenha a certeza que vai viver muito.
Beijos, beijos..
E eu, que nunca voei, tenho medo do Willy Wonka e de cigarras.
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