quinta-feira, 26 de novembro de 2009

útero

 Ela me agradece quando eu ligo e depois diz que me ama. Fica parecendo que ela pede para que eu a ame também. Só porque eu nunca falo. 
 Mas eu penso nos ovos cozidos com gema mole, nas saias longas e floridas; lembro do piso de madeira que fazia barulho quando agente andava, da parede de pedra na rua 7.  Quero dizer, que penso nas noites em que ela ia no meu quarto e montava o cortinado, eu deitada já na cama, a ajudava e depois pedia uma música. Não me lembro quais músicas cantava. Mas eu lembro o som e lembro que dormia antes que acabasse. Olha que eu penso tanto nos banhos na praia da baleia, o vento forte à tarde, caminhadas até Santa Cruz beirando a estrada. Aquele lugar tinha cheiro de felicidade que eu sinto só agora. Me lembro até do barco em Búzios, quando apredia a andar, o Syã ainda não; ficava no colo de papai. Todos nós vivíamos nús e comíamos peixe assado no jantar - foi oque ela me contou. Desde essa época eu sei do corpo dela, eu penso muito nas mãos, unhas curtas, os pés longos e frios. Tirando os pés e mãos, nossos corpos são tão parecidos. E estão ficando ainda mais, hoje eu achei algumas varizes perto do joelho, à noite eu ligo pra dizer isso à ela. Mentira. Eu nunca ligo pra contar nada disso. Eu ligo pra saber da Tunísia, do Atlântico, da Bahia, do Recife. Pra saber da sua Voz e da sua Saudade. Só porque eu nunca falo, ela não sabe que eu penso tanto nela que as vezes é como se eu tivesse pensando em mim.

3 comentários:

William disse...

Tenra infância de mamãe.

Cecília disse...

sempre reparo.. mãos de mãe são sempre especiais

Guilherme Ferreira disse...

Eu e meu pai temos um problema parecido. No meu caso, nenhum dos dois consegue falar.